Caravana vai de Portugal à Croácia com donativos para os refugiados

Por Giuliana Miranda

Incomodado com notícias de mortes e da crise humanitária dos refugiados na Europa, o empresário português João Vasconcelos decidiu cancelar a festa que faria para comemorar seus 40 anos. Resolveu, então, concentrar esforços em juntar donativos e tentar de alguma maneira ajudar as milhares de pessoas, a maioria de origem síria, que chegavam ao continente .

Assim como ele, outros amigos também abriram mão de horas de trabalho e recursos próprios para ajudar. Criaram uma página em uma rede social e, em pouco tempo, atraíram a atenção da população e da imprensa do país.

Em uma semana, a disposição dos amigos já havia contagiado Portugal. Muita gente se mobilizou e criou postos de coleta espalhados por todo o país, recolhendo roupas, remédios, brinquedos e outros gêneros de ajuda para os refugiados.

“Foi espontâneo. Vários amigos que se juntaram e decidiram agir contra a crise humanitária. Íamos com as nossas próprias carrinhas [caminhonetes], mas o movimento cresceu. Acabamos com três caminhões cheios”, explica Vasconcelos, que fez o trajeto rodoviário Lisboa à Croácia, do outro lado da Europa, com os caminhões.

Criança refugiada é clicada junto a caixa de donativos da caravana Crédito: Divulgação/Aylan Kurdi Caravan
Criança refugiada é clicada junto a caixa de donativos da caravana Crédito: Divulgação/Aylan Kurdi Caravan

O grupo batizou o movimento de “Aylan Kurdi Caravan”, em homenagem ao menino sírio de três anos que morreu afogado tentando chegar com a família à Europa e cuja foto correu o mundo como símbolo da tragédia.

“Toda a reação da sociedade civil europeia mudou depois dessa foto. Foi necessária aquela foto para que se tomasse uma atitude”, avalia Vasconcelos, que acredita que os líderes europeus discutem muito a questão, mas ainda não têm ações suficientes para resolvê-la.

A caravana de Aylan Kurdi ganhou apoio do ACNUR (Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados) e conseguiu uma autorização especial do governo francês para cruzar seu território com caminhões durante o fim de semana.

Caixas com donativos portugueses Crédito:  Divulgação/Aylan Kurdi
Caixas com donativos portugueses Crédito: Divulgação/Aylan Kurdi Caravan

Os mais de 3.000 km entre Lisboa e Vinkovci, na fronteira da Croácia com a Sérvia, foram percorridos na semana passada. O grupo fez o trajeto em três dias, com algumas paradas para descansar. O material foi entregue à Cruz Vermelha croata, que está encarregada da distribuição, na terça passada.

“O maior desafio foi encontrar um parceiro com capacidade para distribuir os donativos. São bens valiosos, medicamentos. Não poderia ser qualquer um”, explica o empresário.

A ideia inicial era ir para a Hungria, mas, com as mudanças no fluxo migratório devido às políticas daquele país, o grupo decidiu se dirigir à Croácia.

“Foi muito bonito, saudável e evoluído”, avalia Vasconcelos, que considera a missão da caravana, de dar uma primeira ajuda aos mais necessitados, foi cumprida.

Caminhão é carregado com donativos portugueses para os refugiados Crédito: Divulgação/Aylan Kurdi Caravan
Caminhão é carregado com donativos portugueses para os refugiados Crédito: Divulgação/Aylan Kurdi Caravan

“Não é só a fronteira da Croácia. É a Fronteira da Europa. Tínhamos de ajudar”, diz ele.

Movimento contrário também existe

Apesar da repercussão e do bom resultado da caravana humanitária, grupos contrários à presença de refugiados também têm se manifestado em Portugal, que está na reta final da campanha eleitoral para a escolha de seu primeiro ministro.

Cartaz partidário em área nobre de Lisboa é contra a chegada de refugiados Crédito: Giuliana Miranda
Cartaz partidário em área nobre de Lisboa é contra a chegada de refugiados Crédito: Giuliana Miranda

Na região do Saldanha, área nobre de Lisboa, um gigantesco cartaz deixa claro que alguns políticos não apóiam a entrada dos refugiados.

Desde o início de setembro, foram organizadas algumas manifestações contra a ajuda do Estado aos refugiados. A maioria dos setores contrários justifica que a ajuda deveria ser dada aos cidadãos do próprio país, e não a estrangeiros.