Existe “piada de brasileiro” em Portugal?

Por Giuliana Miranda

A maioria dos brasileiros já ouviu (e muitas vezes já contou) alguma piada de português.  Um leitor do blog me perguntou se a recíproca é verdadeira e se existe, afinal, “piada de brasileiro” em Portugal.

Não, não existe. Pelo menos não com o mesmo estilo e de forma tão disseminada e popular.

Bandeiras de Portugal em frente a um prédio na cidade do Porto Crédito: Giuliana Miranda
Bandeiras de Portugal em frente a um prédio na cidade do Porto Crédito: Giuliana Miranda

Nas piadas tradicionalmente contadas no Brasil, em geral um português de nome Manuel ou Joaquim acaba em maus lençóis por conta de seu raciocínio devagar. Em contraste, há sempre um brasileiro esperto que sabe tirar proveito da situação.

Essa visão do português “burro” em contraste com o brasileiro malandro tem origem nos diferentes fluxos migratórios para o país.

Em um artigo sobre o tema, o pesquisador Robert Rowland (brasileiro, mas radicado em Portugal), explica que muitos consideram que essa representação tenha origem em “tensões pós-coloniais”, mas que o fenômeno é bem mais recente.

Com a independência em 1822, houve uma tentativa de separação da identidade nacional, que foi construída em contraste à “negatividade” da origem portuguesa (muito embora uma grande parte dos novos “brasileiros” tivesse origem e hábitos totalmente lusitanos),

Para a maioria dos estudiosos do tema, as piadas de português como as conhecemos hoje têm muito mais a ver com o fluxo migratório de portugueses a partir do século 19, que chegavam ao Brasil para substituir a mão de obra dos escravos. Tanto nas lavouras como em outros serviços.

Embora houvesse portugueses ricos, inclusive prósperos comerciantes, ao mesmo tempo o Brasil foi apresentado a imigrantes portugueses pobres e dispostos a todo tipo de trabalho: uma competição direta com os trabalhadores nacionais.

A disseminação de piadas e estereótipos pejorativos era uma tentativa de revidar e mostrar a esperteza brasileira frente aos lusitanos.

E as piadinhas definitivamente não correspondem à realidade. Os portugueses têm uma cultura vibrante e uma produção científica e literária muito significativa. Em 1949, António Egas Moniz ganhou o  primeiro prêmio Nobel do país, em medicina. Em 1998, foi a vez de José Saramago faturar a láurea, dessa vez em literatura.

E os portugueses não tiram sarro de ninguém?!

Claro que tiram, mas talvez um pouco menos do que nós, brasileiros.

As “vítimas” nesse caso costumam ser os espanhóis. O país vizinho já dominou Portugal e há uma certa rivalidade em vários aspectos, dos gastronômicos ao futebol.

Além disso, há as anedotas (como as piadas são chamadas por aqui) com os próprios portugueses. A região mais afetada, digamos assim, costuma ser o Alentejo.